Claims agents do Mercosul apresentam suas experiências no seguro de Transporte
por Márcia Alves
Encontro inédito resultou no intercâmbio e na troca de experiências entre profissionais sobre vistoria, gerenciamento de risco e regulação de sinistros no seguro de Transporte Internacional de exportação.
Com a participação de claims agents de destino do Chile, Paraguai e Argentina, e de especialistas brasileiros, a APTS realizou o "Encontro Mercosul de Seguro de Transporte", dia 24 de junho, no auditório do Sindicato das Seguradoras de São Paulo (Sindseg-SP). Sob a coordenação do diretor de Transporte da APTS, Osvaldo Ohnuma, o evento trouxe ao conhecimento dos técnicos de seguro que atuam na carteira, os serviços oferecidos e os métodos de trabalho adotados por peritos, vistoriadores e reguladores de sinistros de países do Mercosul.
Durante a abertura, o presidente da APTS, Luis López Vázquez, cobrou do mercado mais inovação no ramo. "Enquanto o seguro de automóvel incorpora cada vez mais novidades, dos serviços de assistência 24 horas ao lanche para o segurado, o seguro de transporte tem permanecido estagnado por anos", disse.
1º PAINEL - SERVIÇOS PRESTADOS NO CHILE E PARAGUAI
O diretor gerente da Robert C. Hanna & Co, Mark Hanna, apresentou dados sobre o comércio bilateral entre Chile e Brasil. Em 2008, o Chile importou do Brasil US$ 5,2 bilhões e exportou ao país US$ 4,1 bilhões. No mesmo ano, foram emitidas no Chile mais de 111 mil apólices de seguros de transporte internacional, que geraram prêmios da ordem de US$ 102 milhões. O mercado de seguros chileno registrou no período quase 103 mil sinistros na carteira, que resultaram no pagamento de US$ 47,5 milhões em sinistros.
Sobre as condições da cobertura especial do seguro de transportes no Chile, que incluem a guarda de mercadorias em depósitos de terceiros e em armazéns alfandegários, Mark Hanna destacou a importância do trabalho dos vistoriadores (claims agents), para estabelecer coberturas adequadas proporcionais aos riscos segurados. Por meio da exposição de diversos casos práticos de sinistros, ele chamou a atenção para alguns tipos de danos, que são descobertos apenas depois da ocorrência do acidente no exterior. Dentre os riscos de navegação mais comuns, Mark Hanna destacou alguns de avaria grossa, ocasionados por intempéries no mar, que causaram o tombamento de containeres ou incêndio em navios. Os danos nas mercadorias transportadas foram provocados por má estiva.
O programa de controle e prevenção de perdas do paraguai
O diretor Relações Internacionais da APTS, Victor Duarte, apresentou a Etica Liquidação e Peritagens de Sinistros, empresa que dirige, como a única que atua desde o começo na análise de riscos e regulação de sinistros das hidrelétricas Itaipu e Yacyreta. Segundo ele, a sinistralidade do ramo de transporte no Paraguai era bastante alta, variando entre 150% a 230% por ano. Os prêmios também eram proporcionalmente elevados, inviabilizando o seguro de cargas.
Mas, em 1994, ele conta que o mercado de seguros paraguaio, com apoio dos mercados da Argentina, Brasil, Panamá e Alemanha, implantou um programa de controle e prevenção de perdas no ramo. "Parecia algo impossível de implantar no Paraguai. Mas, superamos muitos obstáculos para colocar em prática as resoluções nas aduanas, portos e nos Códigos Civil, Comercial e Penal. Hoje, o programa é uma realidade", disse.
O palestrante afirmou que não há como controlar o comércio ilegal de mercadorias entre Paraguai e Brasil. A aparente segurança que transmitem as inúmeras câmeras instaladas na Ponte da Amizade, que liga os dois países, para ele é uma "mentira", já que há uma extensa fronteira descoberta de vigilância.
Victor Duarte se queixou ainda da prática comum de furtos de mercadorias importadas pelo Paraguai. Ele apresentou três exemplos, ilustrados por fotos, de furtos ocorridos na origem. "Como acham que a mercadoria será furtada no Paraguai, então tratam de furtá-las antes", disse.
2º PAINEL - SERVIÇOS PRESTADOS NA ARGENTINA E SEGURO DE EXPORTAÇÃO NO BRASIL
Artur Santos, que presidiu a mesa do segundo painel, classificou como "exagerado" o crescimento da sinistralidade no ramo de transporte. Segundo ele, no caso do RCTR-C, a sinistralidade, que era de 48% em 2001, chegou a 66% no ano passado. Ele apontou como motivos as más condições das estradas brasileiras e o envelhecimento da frota de caminhões, cuja idade média é de 20 anos. Mas, destacou como causa principal os descontos concedidos por seguradoras, "sem nenhuma base técnica", afirmou.
Gerenciamento de riscos contra o roubo de cargas
Francisco Carlos Gabriel, diretor do Grupo Advance, empresa especializada em gerenciamento de riscos, observa que o problema do roubo de cargas afeta mais o Brasil, porque 75% do transporte de mercadorias no país são realizados por meio rodoviário. Tanto que algumas seguradoras, segundo ele, apenas aceitam o seguro de transportadoras que tenham um programa de gerenciamento de riscos. A mesma exigência também é feita por embarcadores. Mas, a incidência de roubo está aumentando porque o crime organizado, a seu ver, "está cada vez mais organizado".
Francisco Gabriel disse que está crescendo a modalidade de assalto a depósitos. O problema ainda é agravado pela atuação dos receptadores, que, segundo ele, envolve a participação até de empresas multinacionais. Segundo ele, esse tipo de ocorrência não integra as estatísticas, porque as autoridades não consideram invasão como roubo de carga.
No processo de gerenciamento, o diretor da Advance disse que algumas atividades devem ser contínuas, concorrentes e interativas. Ele explicou que o planejamento é essencial nesse processo, porque o crime é dinâmico. Francisco Gabriel contou que ao invés de armas, os ladrões estão utilizando notebook para inibir os sinais de satélites dos rastreadores de caminhões. Num caso recente, foram roubados R$ 2 milhões em mercadorias de caminhão, por esse método.
Quanto ao futuro do gerenciamento de riscos, ele prevê que o rastreamento e monitoramento serão apenas ferramentas, já que grande parte dos casos de roubo de carga ocorre com a participação dos motoristas. A telemetria será uma tendência cada vez mais forte, assim como a acessibilidade aos rastreadores.
Panorama do seguro de Transporte Internacional
Alexandre Leal Rodrigues, da HDI Seguros, forneceu um panorama atual do ramo de Transporte Internacional, nas modalidades exportação e importação. Ele comentou que o seguro, que é regulado pela Circular Susep 351/07, cobre os riscos básicos, adicionais e específicos de transportes aquaviários, terrestres e aéreos. Nas coberturas básicas estão contidas entre outras as cláusulas A (ampla), B e C (básica restrita).
De acordo com Alexandre Rodrigues, durante a contratação as seguradoras, seguindo regras de gerenciamento de riscos, exigem o cadastro de motoristas, veículos e seus proprietários, bem como o rastreamento ou escolta armada. Por meio de gráficos, ele mostrou uma evolução na sinistralidade do ramo, entre 2005 e 2008, e o crescimento proporcional dos prêmios nesse período. "A tendência em 2009 será um menor volume de prêmios", disse. Outro dado interessante trazido pelo palestrante, revelou o ascendente intercâmbio comercial entre o Brasil e os países do Mercosul. Porém, nos cinco primeiros meses deste ano, tanto as exportações quanto as importações caíram bastante.
O seguro e o gerenciamento de riscos em Transporte na Argentina
Nos últimos anos, o fluxo de mercadorias transportadas entre o Brasil e Argentina se intensificou. Conforme os dados apresentados por Gilberto Silva, da P. Browne, empresa formada por peritos e liquidadores de sinistros, desde 1919 na Argentina, no último ano, as importações atingiram US$ 14,5 bilhões, contra US$ 10,5 bilhões de exportações. "Até a década de 90 ocorria o inverso", disse.
Gilberto Silva observou que o mercado de seguros da Argentina guarda algumas semelhanças com o do Brasil. Composto por 190 seguradoras, o mercado argentino produz anualmente US$ 8 bilhões, o que corresponde a 2,6% do PIB. Nos últimos cinco anos o setor cresceu 15%. No ramo de transportes as diferenças aumentam. No país vizinho, 20 companhias somam uma produção anual de US$ 500 milhões, equivalente a 6,5% de todos os ramos. Entre as seguradoras, a liderança no ramo está com a HSBC (25%), seguida pela AIG (11%) e pela Allianz (9%). Pequenas companhias somam juntas 45% da carteira.
Mas, o mercado argentino, segundo o palestrante, enfrenta algumas dificuldades nesse ramo. Entre as principais, estão o não cumprimento das obrigações do direito de regresso perante terceiros; o uso incorreto das normas Inconterms e, com isso, certa confusão em relação ao interesse segurável; o não cumprimento das medidas de segurança exigidas; seguros duplos entre transportadores e donos da carga; e tratamento inadequado quanto ao destino das mercadorias danificadas e em relação às ações operacionais na ocorrência de um sinistro.
Encerramento
No encerramento do encontro, Osvaldo Ohnuma manifestou sua satisfação pelo conteúdo abrangente e esclarecedor do evento, agradecendo a presença de todos os participantes. Ele também agradeceu o apoio dos patrocinadores, Bradesco, ACE, Mapfre, HDI, Funenseg, Zurich e Sindseg-SP.
Box - Opinião da platéia
"Gostei muito do evento e da diversificação de palestrantes. Pude perceber que há muitas diferenças entre nossos parceiros do Mercosul. As palestras foram muito interessantes e gostaria ter outras oportunidades para trocar idéias com esses profissionais".
Marco Eugenio de Oliveira - Planus Corretora de Seguros
"A APTS e o Osvaldo foram extremamente felizes na realização deste evento, o primeiro, que eu saiba, a debater esse assunto. Essa troca de informações e de idéias é muito importante, tanto quanto conhecer as particularidades de atuação do Chile, Paraguai e Argentina. Informações como essas ajudam no nosso trabalho de avaliação de risco, porque são apresentadas por pessoas que estão em contato com o risco".
Jair Carvalheira - Tókio Marine
"Este encontro foi muito positivo porque reuniu, numa única oportunidade, vistoriadores e reguladores de sinistros de países do Mercosul. Ao mesmo tempo em que pudemos verificar a qualidade técnica dos serviços executados nesses países, também pudemos conhecer suas respectivas ferramentas de trabalho e experiências na aplicação de ações. Caso, por exemplo, do Paraguai, que ao contrário do Brasil, conseguiu quase eliminar o roubo cargas, por meio de um programa de prevenção. Para a ACE, este encontro também foi proveitoso, porque permitiu o contato com representantes de alguns dos países que já são nossos parceiros comerciais".
Murilo Decnop - diretor de Sinistros da ACE Seguradora